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28/05/18

Entrevista – Uma mulher à frente da Poli/USP

“Temos concorrência externa e, ao mesmo tempo, grandes empreiteiras passando por problemas de corrupção, de ética. A engenharia brasileira precisa se reestruturar”, afirma.

A engenheira Liedi Légi Bariani Bernucci é a primeira mulher a estar à frente da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) em 125 anos. Empossada em 21 de março último, Bernucci foi vice-diretora na gestão anterior e há 32 anos integra o corpo docente da faculdade. Para ela, a instituição tem o papel de ajudar na superação da crise enfrentada pelo setor.

Ela acredita que a Poli, com 5.241 alunos de graduação – dos quais 1.018 do sexo feminino –, 17 cursos, 445 docentes, além dos programas de pós-graduação e extensão, tem a missão de “preparar os recursos humanos motivados à transformação do nosso futuro”.

Engenharia civil, Bernucci está feliz em ser um exemplo às mulheres engenheiras, que ainda sofrem na área predominantemente masculina. “Não há limite de gênero para os cargos, estes estão aí para serem ocupados pela competência, pelo talento, pelo preparo”, defende.


Quais são os principais objetivos da nova direção da Poli?
Queremos avaliar o sucesso e possíveis problemas resultantes da nova estrutura curricular, implantada há cinco anos nos cursos de graduação. Temos uma turma no último ano, então é o momento propício a essa avaliação. Objetivamos aprimorar os cursos de pós-graduação que estão com notas menores, embora não ruins, na Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Vamos incentivar programas que ajudam os alunos com vulnerabilidades, como o projeto da Associação dos Engenheiros Politécnicos, que doam bolsas; e o Retribua, em que ex-alunos e profissionais do mercado oferecem mentoria. Em pesquisas, queremos fomentar ainda mais grupos nas áreas de desenvolvimento e inovação. Temos um em gás natural, com 60 professores da USP, sendo 40 da Poli, em parceria com empresas e setor público. Também incentivaremos os cursos de extensão, assim como ações sociais, que visem desenvolver tecnologias não só para atender uma demanda, mas que transfiram tecnologia à sociedade, alavancando o desenvolvimento.

E quais são os desafios da Poli?
Precisamos enfrentar a crise nacional que atinge diretamente a engenharia. Paralelamente temos uma crise na universidade, um momento em que temos restrições orçamentárias de fato, pois muito se usou de recursos e hoje é preciso cortar gastos. Essa é nossa maior dificuldade, precisamos ser criativos e buscar recursos, diferentes soluções para financiar tudo o que a Poli faz.

Qual a sua visão da engenharia, levando-se em conta a recessão e medidas políticas que desfavorecem o setor, como abertura ao mercado estrangeiro, privatizações, falta de clareza e até enfraquecimento das leis trabalhistas?
A engenharia sente muito (os fatos citados). Temos a concorrência externa e, ao mesmo tempo, as grandes empreiteiras passando por problemas de corrupção, de ética. A engenharia brasileira já foi tida, há 20, 30 anos, como de ponta, e precisamos recuperar essa imagem. Voltar a ter imagem da engenharia técnica, de alta tecnologia, de desenvolvimento.

Como a Poli, que é referência no País, pode ajudar nesse sentido?
Podemos colaborar com projetos e pesquisas que contribuem diretamente no desenvolvimento e no aumento de riqueza (da população). Também na formação sólida do engenheiro, com experiência no exterior. Formar o profissional preparado para enfrentar a reconstrução da imagem que a engenharia precisa, em médio e longo prazo. Não somente a Poli, mas as escolas de engenharia, de modo geral, têm a missão de preparar os recursos humanos motivados à transformação do nosso futuro.

Com esse intuito, a FNE apoia o Instituto Superior de Inovação e Tecnologia (Isitec), mantido pelo Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (Seesp), que oferece a graduação em Engenharia de Inovação, pioneira no País. Qual a sua visão sobre iniciativas como essa?
São iniciativas que apontam para uma melhoria do profissional, formar recurso humano preparado. A nova imagem da engenharia vai ser consequência do trabalho deles. Mas nada no ensino muda a curto prazo. E não somente na engenharia, mas toda a educação no País tem que ser bem fundamentada. Sem essa educação muito bem baseada, eu não acredito no crescimento econômico do Brasil nem na melhoria de vida à população.

O que significa ser a primeira mulher na direção da Poli?
Eu fico muito feliz de abrir mais uma porta ao gênero feminino e espero dar um exemplo positivo para as mulheres. Um exemplo de que elas podem ocupar qualquer cargo da engenharia. Não há limite de gênero para os cargos, estes estão aí para serem ocupados pela competência, pelo talento, pelo preparo. A engenharia ainda é uma área mais masculina, mas está mudando. Desde meu tempo de graduação para hoje, vejo que está mudando. E a gente precisa realmente combater o preconceito, que é inimigo para se melhorar, aperfeiçoar e progredir.

Nesse esforço, em 2017, alunas e professoras da Poli, inclusive a senhora, produziram um vídeo de denúncias de casos de machismo e violência à mulher na universidade. Ações como essa que combatem o preconceito?
Sim. Hoje a juventude está alerta e as mulheres denunciam, isso é muito positivo. Na minha época não tínhamos a quem reclamar. Hoje, as mulheres não se calam, e não devem mesmo se calar. Algumas pessoas falam que a vida está chata, porque comentários preconceituosos antes vistos como piada hoje são totalmente condenados. Não acho chato coisa nenhuma, é chato para quem estava acostumado a mandar em tudo. Para quem sofria preconceito, essa mudança é muito boa.


Fonte: Engenheiro, jornal impresso da Federação Nacional dos Engenheiros





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