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23/06/20

Pandemia estimula inovação nas universidades brasileiras

Webinar “Engenharia e ciência no combate ao coronavírus” da Federação Nacional dos Engenheiros (FNE), ocorrido no final da tarde de terça-feira (16/6), abriu uma janela para a ciência, pesquisa e inovação nas universidades.

Imagem: ReproduçãoImagem: Reprodução

 

As universidades brasileiras estão em busca de soluções para a crise de saúde no País, causada pelo novo coronavírus. Os depoimentos dos pesquisadores no Webinar “Engenharia e ciência no combate ao coronavírus”, organizado pela Federação Nacional dos Engenheiros (FNE), emocionaram quem estava assistindo ao evento virtual, que durou duas horas, transmitido pelas páginas do Youtube e Facebook da Federação.

“Neste momento muito crítico da humanidade, temos claro que a engenharia e a ciência são fundamentais na reconstrução de um mundo mais equilibrado. Nós acreditamos em mais produção, mais trabalho e menos rentismo”, declarou na abertura da atividade Fernando Palmezan Neto, coordenador do Projeto “Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento”, da FNE, que promove debates e propostas da entidade voltadas ao avanço socioeconômico e tecnológico do País.

A partir do Cresce Brasil, a Federação irá promover diversas discussões virtuais com esse viés, como atestou Murilo Pinheiro, presidente da entidade: “Nosso projeto Cresce Brasil está em pleno andamento e trará discussões que apresentarão propostas factíveis para o período pós-pandemia no qual será fundamental a engenharia, juntamente com a medicina”.

Na discussão de ontem (16/6), o professor Amarildo Tabone Paschoalini, chefe do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Ilha Solteira, contou como tem sido o processo de criação no campus, que, apesar de não ter Faculdade Medicina, atuou em prol das necessidades dos hospitais da região, que faz divisa com o estado do Mato Grosso do Sul, em parceria com o Instituto Federal.

Ao verem o caos instaurado na Itália, a equipe do Laboratório de Engenharia Biomédica, do Departamento de Engenharia Elétrica (Lieb/DEE) constatou que o Brasil também passaria pelos mesmos problemas, como a falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPI). Então, a partir de uma impressora 3D, iniciaram a produção de máscaras Face Shield. Depois, outros laboratórios foram convidados a ampliar a produção, que aceitaram prontamente e disponibilizaram todas as impressoras, além de equipamento com raios ultravioletas para a esterilização do material. Atuam em conjunto os departamentos de Engenharia Mecânica, Física e Química, Biologia e Zootecnia. A equipe vem recebendo doações e, com isso, compraram novas impressoras que foram montadas lado a lado num hub para dar início a uma produção em série.

“Na hora que precisamos unir esforços, os alunos entenderam o chamado e passaram a ficar dia e noite na impressão, que tem ainda um trabalho de corte do acetato e acabamento. Cada um doou o que podia para fazer o maior número de máscaras possível”, detalhou Amarildo Paschoalini, que exibiu com orgulho fotos das entregas das máscaras para as equipes dos hospitais.

Segundo ele, mais de 1.500 unidades foram doadas para 50 locais como hospitais, prontos-socorros e até para a Polícia: “A felicidade deles ao receberem os equipamentos é o nosso pagamento”.

Após esse contato com os trabalhadores da área da saúde, tomaram conhecimento da necessidade de esterilização dos EPIs e dos hospitais. Com isso, foi criado um grupo de equipamentos com raios ultravioletas para esterilização. Os primeiros foram o rodo e o esterilizador portátil de mão, já em uso nos hospitais de Ilha Solteira, Três lagoas e de Andradina.

Depois, foram criados uma cabine de esterilização, que faz a limpeza e higiene em dois minutos, e, em fase de desenvolvimento, um circulador de ar. Ele lembra que os raios UV são prejudiciais à saúde humana, portanto, deve haver um cuidado para não expor diretamente as pessoas.

O objetivo do grupo é levar para o mercado essas inovações a partir de parcerias com empresas, o que já está concretizado, segundo ele.

Inspire
O depoimento emocionado do professor Marcelo Zuffo, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP), sobre a criação do ventilador pulmonar Inspire contagiou a todos os expectadores, que parabenizavam a todo momento a iniciativa, que atualmente reúne cerca de 200 engenheiros voluntários que em três semanas desenvolveram e montaram toda a engenhoca.

Ele lembra que, ao constatar o colapso na Itália em seu sistema de saúde, sua logística e sua economia, o caminho adotado na Poli, após uma reunião verdadeiramente inspiradora, feita pela diretora da escola, a professora Liedi Legi Bariani Bernucci, foi o de buscar alternativas aos respiradores pulmonares, tendo em vista a experiência com equipamentos biomédicos para pulmão na Escola e a indústria de engenharia biomédica forte que existe no País. Atualmente, só na Anvisa existem 86 empresas certificadas.

Ainda em seu relato, a visão global da engenharia foi capaz de perceber que o vírus também atacava outras frentes, como as cadeias globais de suprimentos, o que levou à reflexão sobre a dependência de um mercado globalizado – dominado por China e Estados Unidos - que não está priorizando a distribuição dos insumos a países como o Brasil.

“No dia 15 de março, quando decidimos fechar a universidade, parecia ficção científica: todos carregando computadores embaixo do braço, grupos resistiam à ideia de fechamento do campus por não acreditarem na dimensão do problema, e o desafio instaurado após uma importante reunião em que a diretora da Poli fez um pedido a nós: de que a sociedade precisa de respostas, que não estão apenas no campo da saúde, que é o momento de nos unirmos para ir a uma verdadeira guerra”, descreveu Zuffo emocionado.

Cinco minutos depois dessa reunião, nascia o projeto Inspire, como um ventilador de uso emergencial para contingenciamento na falta de ventiladores profissionais até se tornar  um projeto de um ventilador classe 3 com responsabilidade técnica de dois engenheiros.

Zuffo, que também é membro do Instituto de Engenheiros Eletrônicos Eletricistas e diretor na América Latina da Sociedade de Consumer Eletronics, demonstrou como o equipamento funciona, a partir de um ambu reanimador, um balão feito de polímeros avançados como silicone, com o volume de um pulmão humano (1.600 litros), tecnologia inventada nas guerras da Coreia e do Vietnã, quando se descobriu que para sustentar a vida, além da massagem cardíaca, se faz também a massagem respiratória. A partir dessa ideia, o movimento que simula um pulmão foi automatizado com a ajuda de um motor de passo, que é digital (de alta precisão) e de baixo custo (12 dólares) e um fuso que amassa o ambu. Com isso, chegou-se a extrair 1.400 mililitros de oxigênio.

Para custear todo o esforço, foi feita uma vaquinha na internet que, só nas primeiras 10 horas, arrecadou R$ 200 mil e contou com apoio de uma rede de 1.400 ex-alunos articulados.

O ponto alto em seu depoimento foi o teste realizado na UTI do Instituto do Coração (Incor) com um paciente de Covid-19 em estado avançado: “O professor Carlos Carvalho [pesquisador] falou: tira o ventilador da boca do paciente e coloca o da USP. Foi uma experiência espiritual pra mim porque durante três horas seguidas o paciente com mais de 90% do pulmão comprometido viveu sustentado por um equipamento feito por nós há cerca de 40 dias. Este momento mudou a minha vida”.

Outros quatro ventiladores de uma nova geração estão em fase de teste no Incor. E a partir de hoje (17/6) serão realizados testes em 40 pacientes.

Esforços em todo o País
Henry Campos, professor titular de Medicina Interna da Universidade Federal do Ceará, foi o terceiro participante a falar. Ele traçou um panorama da atuação das universidades neste momento, demonstrando a importância dessas instituições, inclusive, neste cenário em que o País é gravemente atingido pela pandemia.

“A dimensão da pandemia no Brasil tem várias explicações, entre elas o corte de investimento na ciência, saúde e educação nos últimos anos. Embora tenhamos as informações desde dezembro de 2019 sobre o perigo de disseminação do vírus, ficou muito claro que o País não planejou e nem tomou as ações que deveria ter tomado para um enfretamento programado dessa crise”, lamentou, lembrando ainda do cenário pré-pandemia de desinvestimento do Sistema Único de Saúde (SUS), desarticulação do programa de Saúde da Família, demissão de agentes comunitários e extinção do programa Mais Médicos, que abriu vazios assistenciais notadamente na região Norte, com desassistência em comunidades quilombolas e aldeias indígenas.

“Embora meu olhar esteja direcionado aos novos paradigmas na área da Saúde, também acompanho que há grande movimento de inovações pedagógicas na Engenharia. E a crise colocou a nu nossas fragilidades, mas também nos trouxe a capacidade criativa de resposta com inovações, trabalho em equipe, solidariedade, em especial nas nossas universidades e instituições de ensino superior Brasil afora”, destacou o especialista em Educação Profissional.

Ele citou ações nas diversas regiões brasileiras como a fabricação de peças de reposição para ventiladores pulmonares, recuperação de mais de duas centenas de respiradores parados, construção de um capacete que fornece oxigênio sob pressão, permitindo oxigenação adequada, em uso e já em processo de licenciamento na Agência de Vigilância Nacional (Anvisa), várias iniciativas em modelagem e acompanhamento e projeções de curvas, aplicativos de apoio gerencial aos governos, entre outros.

Ele concluiu que é preciso repensar desde já a atuação nas universidades num cenário pós-pandemia. Citando um artigo da revista científica Nature, do dia 1º de junho último, elencou algumas mudanças: redirecionamento das atividades presenciais para online; aumento do custo dos alunos nas mensalidades e taxas, com maior conscientização sobre o elitismo no Ensino Superior; redução no número de estudantes internacionais – Austrália, por exemplo, estima perda de 3 a 5 bilhões de dólares australianos; reorganização do direcionamento das ações das universidades para atuações mais relevantes nas comunidades as quais servem; fortalecimento das relações horizontais com melhor compreensão no processo ensino-aprendizagem com via de mão dupla e maior opção para as necessidades de toda a comunidade acadêmica e trabalhadores da saúde; incentivo às áreas básicas do conhecimento; realce para o trabalho de forma articulada e intersetorial.

“As escolas precisam se antecipar às necessidades da sociedade e direcionar suas pesquisas para os problemas reais. Se não encontrar respostas para males atuais como dengue, zika, quem vai fazer isso? É mais louvável às vezes não requentar pesquisas e focar em trabalhos iniciais que levem para a resolução das questões que nos afligem. Nós, profissionais, seremos recrutados para a reconstrução das vidas”, finalizou.

Acesse o Diário de Bordo do projeto Inspire, registrado em vídeos neste link .e a apresentação do projeto da Unesp aqui.

Assista a íntegra do webinar "Engenharia e ciência no combate ao coronavírus”:





Deborah Moreira
Comunicação Seesp





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