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15/05/17

Brasil e suas histórias: máscaras de uma democracia

Renan Antônio da Silva

O Brasil é um país extremamente exótico. Dono de uma população muito peculiar, miscigenada, produto da fusão de brancos, negros e indígenas. Uma ebulição cultural que torna o país diferenciado de todos os demais. Essa mescla humana, porém, não se traduz em harmonia social e justiça econômica. É um dos países que sofre de uma grave concentração de renda, que alija os pobres, especialmente negros para as bordas do país, das cidades e dos bairros, criando uma estrutura ideal para proliferação de criminalidade, violência e disparidades.

A ditadura aplicou um golpe de Estado em 1964, depondo o presidente legítimo João Goulart, acusando-o de ser comunista, algo que jamais foi comprovado. O que Jango intencionava com suas reformas de base era corrigir distorções graves que durante o regime civil-militar ficaram mais evidentes: o Brasil é um país desequilibrado, socialmente injusto, onde poucos possuem muito e muitos têm pouco ou nada. A pobreza viceja em todos os rincões do país e somente entre 2001-2011, com medidas de distribuição de renda, que o país conseguiu melhorar seus indicadores internacionais.

A grande ironia do regime civil-militar: lutou para que o Brasil não se tornasse comunista, mas no seu fim, nos anos 1990 o Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil era quase idêntico ao de Cuba, sendo que o Brasil estava apenas uma posição à frente de Cuba. Porém, se analisássemos a questão da distribuição da riqueza, problema clássico brasileiro, o Brasil teria índice similar aos de países africanos. Essa é a dura verdade sobre a ditadura: ela causou pobreza econômica, cultural, política e social ao Brasil.

Há os que defendem o regime, sob a falsa impressão e sensação de segurança que dizem sentir, num período dominado pelo terror nos quais crimes comuns, como assaltos, roubos, homicídios sempre continuaram existindo, com taxas normais para época. Vale lembrar que nesse período, Nova York enfrentava altíssimos índices de violência urbana. Logicamente que o Brasil não poderia estar numa redoma, livre da criminalidade. Outros defensores do regime falam que os membros da resistência também mataram. É verdade! Porém, alguns detalhes precisam ser lembrados: as supostas vítimas da resistência eram 99% membros das polícias ou das Forças Armadas, que morreram em combate; nenhum deles foi sequestrado e torturado; por fim, nenhum deles teve seu corpo eliminado. Assim, com todo respeito, não há razões para se defender as atrocidades do regime civil-militar, especialmente quando analisamos seus métodos sádicos de tortura.

Mesmo no século XXI, o país vive uma democracia sem rumo, sem moral e sem virtude política, os brasileiros não confiam nos políticos, mas tampouco se mobilizam contra os abusos de mandatários eleitos legitimamente, mas que agem de maneira ilegítima, com improbidade administrativa e moral para com a máquina pública e todo povo brasileiro.

Ademais, sofrendo de uma extrema apatia política, o povo brasileiro permite que surjam no cenário político bizarrices, como políticos que se elegem por dizerem que não são políticos, palhaços cuja plataforma de campanha são as palhaçadas circenses e homens com discurso de ódio, que levantam a bandeira de um moralismo que não existe.

Todos esses fatos são a comprovação de que o Brasil está repleto de tumores, todos eles consequências de anos de persistente prática de terrorismo de Estado que, como disse Galeano, cria-se outros terroristas para colher álibis ao semear o ódio. É um problema antigo, que não pode ser solucionado com poucos anos, mas com décadas de investimento e políticas públicas, voltadas especialmente para inclusão das grandes vítimas desse caos: negros, mulheres, crianças e jovens, indígenas e pobres de modo geral. Talvez a solução esteja diretamente relacionada à melhora da Educação ou, podemos ser mais assertivos, na criação dela, como direito universal, público, gratuito e de qualidade.

Essa é a esperança que nutrimos: após a análise das muitas atrocidades que já ocorreram no país, que haja, não o sentimento de vingança e revanchismo, mas o sentimento de indignação e mudança para construção de um país digno de seu porte, orgulho para seu povo e exemplo para o mundo na superação da dor e do sofrimento ao estabelecer um sociedade mais fraterna, unida, visando o bem comum e a prosperidade de vários povos.


Renan Antônio da Silva, antropólogo e pesquisador. É doutorando do Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Araraquara.

 

 


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