O Brasil não conhece o Brasil
"É triste reconhecer, mas o fato é que nenhum brasileiro precisaria passar fome. Temos a maior bacia hidrográfica e uma das maiores costas marítimas do mundo, e o mesmo se pode dizer dos animais e dos vegetais aliment
O Brasil tem dimensões continentais, o que aparentemente justifica o fato de habitantes das regiões sul e sudeste desconhecerem frutos e hortaliças das regiões amazônica, pantaneira etc.
Digo aparentemente porque duvido que os russos ou os chineses desconheçam sua flora e fauna, apesar de também viverem em países de dimensões continentais como o nosso. Os brasileiros não valorizam o que é seu, seja por ignorância, seja por um crônico complexo de inferioridade que parece impregnar o nosso povo como um todo, uma espécie de "inconsciente coletivo" dos brasileiros...
Quem é paulista conhece ou já ouviu falar do cemitério do Araçá, na capital paulista. Todavia, quantos de nós sabemos o que é o araçá? Similarmente, conhecemos ou já ouvimos falar no bairro do Cambuci, também na capital, mas quem sabe o que é o cambuci?
Araçá, cambuci, guabiroba, jaboticaba, goiaba, pitanga, uvalha, cabeludinha, cambuci e cambucá são frutos da família Mirtaceae, nativa da Mata Atlântica, localizada na região Sudeste do Brasil. Temos essas árvores em nossos quintais e não as conhecemos! Destes dez frutos citados, somente a goiaba e a jaboticaba são conhecidos pelos paulistas!
O cambuci confere odor e sabor extremamente apreciáveis à aguardente. Se o empregássemos industrialmente certamente nossas vendas, tanto para o mercado interno como para exportação, cresceriam enormemente.
O cambucá é tão saboroso que foi empregado metaforicamente numa velha canção ardente e apaixonada, re-gravada pela cantora Gal Costa: "São da cor do mar, da cor da mata, os olhos verdes da mulata são tentadores e fatais, fatais. E, num beijo ardente e perfumado, revela o gosto do pecado, de saborosos cambucais..."
A pitanga, por seu sabor picante, linda coloração avermelhada e belo formato, poderia perfeitamente substituir as cerejas ou os morangos no bolo tipo floresta negra.
A taioba, cujas folhas são consumidas à semelhança da couve, é, contudo, mais saborosa do que esta última. No entanto, somente pessoas idosas oriundas do sertão mineiro ou baiano ainda conhecem essa hortaliça, portanto, esse conhecimento está se perdendo, está desaparecendo. No vale do Ribeira, em São Paulo, empregam-se os tubérculos desse vegetal, desprezando-se as folhas, interessante...
O caruru é uma hortaliça nordestina que empresta seu nome a um prato típico daquela região. O ora-pró-nóbis era muito empregado nos tempos coloniais, da casa grande à senzala. Hoje ninguém mais conhece essa hortaliça que nos foi trazida pelos escravos, adaptando-se perfeitamente às nossas condições climáticas.
Cabe a todos nós, brasileiros, o empenho em conhecer, empregar e resgatar o emprego desses vegetais. Se cultivados em larga escala eles chegariam à nossa mesa a preços extremamente accessíveis, uma vez que são procedentes da nossa flora nativa, por isso estão perfeitamente adaptados às nossas condições de solo e clima.
Muitos são inclusive considerados ervas invasoras de culturas, tamanha a facilidade com que medram e se desenvolvem em nossa terra, tais como: a serralha, o caruru, a beldroega, a língua-de-vaca e a taioba.
Os frutos amazônicos podem e devem ser aproveitados antes que os japoneses o façam, à semelhança do que ocorreu com o cupuaçu. Os frutos daquela região permanecem caindo e apodrecendo na floresta equatoriana sem proveito para ninguém: buriti, caiuê, castanha de galinha, mari, piquiá, sorva, tucumã, uxi etc. O açaí vem sendo explorado, escapou do esquecimento, não sei como. Ainda bem, pelo menos esse se salvou.
Há também os frutos pantaneiros, e entre os mesmos nenhum teve a sorte do açaí amazônico: bacaba, baru, cagaita, coco butiá, guariroba, jaracatiá, lobeira, mangaba e outros.
É triste reconhecer, mas o fato é que nenhum brasileiro precisaria passar fome. Temos a maior bacia hidrográfica e uma das maiores costas marítimas do mundo, e o mesmo se pode dizer dos animais e dos vegetais alimentares e medicinais que possuímos, uma vez que estamos localizados entre os dois trópicos e não temos deserto.
O semiárido tem solo rico e os períodos de seca poderiam ser compensados através da construção de cisternas combinadas ao desvio dos lençóis freáticos existentes no cerrado, com o qual se limita.
A única coisa que na verdade nos falta é esclarecimento, informação, discernimento, auto-estima. Em uma palavra, é cultura.
Luzia Ilza Ferreira Jorge, pesquisadora do Instituto Adolfo Lutz de Santos. Jornal da Ciência
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