Brasil poderá ter droga nacional contra tuberculose
Droga mais recente foi desenvolvida há cerca de 40 anos. Pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Tuberculose (INCT-TB) trabalham em novas substâncias
Segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS), um terço da população mundial está infectada pelo bacilo Mycobacterium tuberculosis, causador da tuberculose. Desse total, 10% irão desenvolver a forma ativa da doença. Outros números indicam que mais de 30 milhões de pessoas morreram em decorrência da moléstia nos anos de 1990.
O bacilo pode permanecer dormente até que as defesas do corpo sejam diminuídas, como no caso de soropositivos ou imunodeprimidos por fármacos. Atualmente, o tratamento preconizado pela OMS utiliza a combinação de quatro drogas: Isoniazida, Rifampicina, Pirazinamida e Etambutol, que possuem mecanismos de ação distintos e evitam o surgimento de mutações que levam à resistência.
Contudo, o maior problema para o tratamento da enfermidade foi o surgimento de amostras MDR e XDR (Mutiple Drug Resistance e Extensively Drug Resistance, respectivamente nas siglas em inglês). As MDR são resistentes pelo menos a Isoniazida e Rifampicina e as XDR são resistentes a quase todas as drogas, incluindo as de segunda linha, e virtualmente intratáveis.
A droga mais recente utilizada para tratar a tuberculose foi introduzida há quase 40 anos. Ao que parece a indústria farmacêutica não se empenhou para criar novos fármacos, uma vez que 95% dos casos registrados da doença ocorrem em países não desenvolvidos.
No Brasil, pesquisadores do INCT-TB, apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), desenvolveram os compostos IQG607 e IQG639 para tratar a enfermidade. Os testes in vivo, ou seja, com animais, se mostraram extremamente promissores.
"Os nossos compostos são diferentes, pois matam as amostras resistentes às atuais drogas e se mostraram atóxicos", afirma o coordenador do INCT-TB e bolsista do CNPq, Diógenes Santiago Santos. "Estes seriam os primeiros farmoquímicos de concepção inteiramente nacional. As drogas para tratamento da tuberculose são importadas da Índia, China, Coreia do Sul e distribuídas gratuitamente pelo Governo Federal através do SUS (Sistema Único de Saúde)", completa o pesquisador.
Os estudos de toxicidade aguda e crônica são importantes para definir as doses mínimas, máximas e efeitos colaterais. "Nos ensaios já concluídos, verificamos que os compostos são pouco tóxicos comparados à isoniazida. O corte foi de dois gramas por quilo de peso, em ratos Wistar. Para se ter uma ideia, 250 miligramas de Isoniazida por quilo de peso matam 100% dos animais testados em duas horas, devido à hepatotoxicidade e neurotoxicidade da droga", afirma Santiago.
Os fármacos, que começaram a ser desenvolvidos em 2001, foram patenteados para proteger os achados, mas, para baratear o produto final, a patente será aberta no momento da produção comercial. O que não deve demorar, como explica o pesquisador. "Estamos em discussão com um grande laboratório farmacêutico nacional para a formulação da droga, que será de uso oral".
Testes
Os ensaios clínicos fase I e fase II, testes em humanos, devem começar imediatamente e serão conduzido pelo professor Reynaldo Dietze, do Núcleo de Doenças Infecciosas da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Nessas fases, existe a possibilidade de uma cooperação com o governo sul-africano. "Discutimos a real possibilidade de produzirmos as drogas no Brasil, com financiamento do governo federal, para, em seguida, fazermos os ensaios clínicos no Brasil e na África do Sul, sobretudo nas áreas onde vicejam as amostras XDR que são realmente mortais, dada a co-infecção com o HIV", afirma Dietze.
Fonte: CNPq)
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